Do interior da Bahia à disputa por uma cadeira na ABL: a trajetória literária de Taurino Araújo ganha estudo internacional
Pesquisa da semioticista canado-brasileira Lícia Soares de Souza analisa o protagonismo feminino em “Guadalupe Madre”. Candidato à Cadeira 32 da ABL, escritor baiano também homenageia Castro Alves e destaca 49 anos de dedicação à literaturaA produção literária do escritor, poeta e jurista baiano Taurino Araújo ganha uma nova abordagem crítica com a publicação de um estudo internacional assinado pela semioticista canado-brasileira Lícia Soares de Souza. A pesquisa investiga o protagonismo feminino em Guadalupe Madre e amplia as perspectivas de análise da obra do autor, que concorre à Cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras (ABL), vaga após a morte do jornalista e escritor Zuenir Ventura, em 22 de setembro de 2026.
Segundo o material de divulgação do escritor, sua produção poética ultrapassa 3 mil páginas, de excelente poesia brasileira, a exemplo dos famosos A Caturna; Guadalupe Madre; A caçambilha; É tarde, mas não é tarde... O novo estudo acrescenta a esse repertório uma leitura centrada nas representações femininas e nas relações entre diferentes discursos, referências culturais e contextos literários.
Intitulado Female Protagonism in Guadalupe Madre, by Taurino Araújo: A Hypothesis of Transdiscursive Coherence (Protagonismo feminino em Guadalupe Madre, de Taurino Araújo: uma hipótese de coerência transdiscursiva), o trabalho tem 42 páginas e foi disponibilizado na plataforma científica Zenodo. Com tradução de Edson Reis Santana, a pesquisa parte da obra poética de Taurino para estabelecer conexões culturais e literárias entre a Bahia, Portugal, o México e outras regiões das Américas.
A publicação ocorre em um momento importante para a trajetória do autor. Taurino está entre os 17 candidatos inscritos para a sucessão de Zuenir Ventura na Cadeira 32 da ABL. As inscrições foram encerradas em 8 de outubro, e a eleição está marcada para 12 de novembro de 2026.
“Chego das margens interioranas de Jequié e Ubatã, nos ombros de minha obra grandiosa, para trabalhar pelas letras do Brasil, Oxalá que isso aconteça agora ainda na quadra dos meus 57 anos, 49 deles dedicados quase exclusivamente a esse assunto”, afirma o escritor, ao sintetizar a relação entre suas origens baianas e o percurso dedicado à literatura.
Cadeira 32 e a tradição literária brasileira
A disputa pela Cadeira 32 coloca a candidatura de Taurino em diálogo com uma linhagem de escritores e intelectuais que marcaram a literatura e a vida cultural do país. A cadeira tem como patrono Manuel de Araújo Porto-Alegre e foi fundada por Carlos de Laet. Entre seus ocupantes estiveram Ramiz Galvão, Viriato Correia, Joracy Camargo, Genolino Amado, Ariano Suassuna e Zuenir Ventura.
Eleito em 2014, Zuenir tomou posse em março de 2015, sucedendo Ariano Suassuna. Com a abertura da vaga, a Academia iniciou o processo de escolha de seu próximo integrante, cuja eleição ocorrerá em novembro.
Taurino associa sua candidatura à experiência jurídica, à oratória e à produção poética, defendendo uma trajetória construída a partir da palavra e da reflexão intelectual. Ao mencionar Ariano Suassuna, resume simbolicamente sua aproximação com a história da cadeira: “Depois de Ariano, é Taurino”.
A frase expressa a intenção de estabelecer um diálogo com a tradição literária da instituição, sem perder de vista as questões culturais e sociais contemporâneas.
Reconhecimento crítico e produção poética
A obra de Taurino Araújo também é objeto de avaliações de críticos e intelectuais. Nelson Cerqueira e Mário Nelson Carvalho são citados no material de divulgação da candidatura como responsáveis por caracterizá-lo como um “monumento vivo da Língua Portuguesa”.
Entre os títulos associados à sua produção estão A Caturna, A caçambilha, Guadalupe Madre e É tarde, mas não é tarde. Os livros integram um percurso que relaciona linguagem poética, experiência humana e memória cultural.
A pesquisa de Lícia Soares de Souza acrescenta a esse debate uma perspectiva específica sobre o protagonismo feminino, contribuindo para ampliar a discussão crítica em torno da obra do escritor baiano.
Tributo a Castro Alves revisita liberdade e memória
Outro eixo da produção de Taurino é o diálogo com Castro Alves, poeta baiano reconhecido por sua poesia abolicionista e por sua atuação no condoreirismo brasileiro.
Essa aproximação aparece em É tarde, mas não é tarde, poema dedicado ao autor de O Navio Negreiro. Organizada em 12 partes — Deus, Universo, Amor, Liberdade, O Navio, A Bahia, A Morte, O Milagre, 14 de Março, Tarde, O Nome e Castro Alves —, a composição revisita temas como amor, liberdade, escravidão, justiça, morte e permanência da palavra.
Na construção poética, versos curtos e imagens simbólicas estabelecem uma relação entre a tradição literária do século XIX e questões que permanecem presentes no debate contemporâneo. Uma das leituras propostas para o poema é a transformação do voo do condor, imagem associada à grandiosidade da poesia condoreira, em uma “metáfora da escada”: uma progressão construída degrau por degrau, por meio de versos breves.
As referências aos navios negreiros, às correntes e ao Atlântico evocam a violência da escravidão e a importância da memória histórica. A homenagem aproxima, assim, a tradição abolicionista de Castro Alves de uma reflexão sobre liberdade, linguagem e responsabilidade da literatura diante do passado.
Bahia como território de memória
O poema também recupera um episódio situado em 14 de março de 1992, em Ilhéus, no sul da Bahia, relacionado à defesa da preservação da memória de Castro Alves. A narrativa menciona ainda acontecimentos posteriores, encontros literários e homenagens em cidades baianas.
Salvador, Ilhéus, Itabuna, o sertão e a Baía de Todos-os-Santos compõem o cenário simbólico dessa construção, que conecta a experiência regional a temas universais da literatura brasileira.
Ao revisitar o legado de Castro Alves, Taurino reafirma a importância da memória cultural como elemento de continuidade entre gerações e como matéria para novas interpretações literárias.
Quase cinco décadas dedicadas às letras
Aos 57 anos, Taurino destaca o tempo dedicado à produção intelectual como parte central de sua trajetória. Segundo o escritor, são 49 anos de dedicação quase exclusiva à literatura.
“Eu chego das margens interioranas de Jequié e Ubatã nos ombros de minha obra grandiosa para trabalhar pelas letras do Brasil. Oxalá que isso aconteça agora ainda na quadra dos meus 57 anos, 49 deles dedicados quase exclusivamente a esse assunto”, declara.
A fala evidencia a importância atribuída às origens no interior baiano e à construção de um percurso que reúne poesia, pensamento jurídico e atuação pública.
Além do estudo sobre Guadalupe Madre, o poema É tarde, mas não é tarde deverá motivar uma nova análise crítica, conforme informado no material de divulgação do autor. Ainda não foram apresentados detalhes sobre os responsáveis pelo trabalho ou a previsão de publicação.
A pesquisa de Lícia Soares de Souza amplia a circulação da obra de Taurino Araújo e acrescenta uma nova perspectiva ao debate sobre sua produção literária. Entre o protagonismo feminino, a releitura de Castro Alves e a valorização da memória cultural, o escritor apresenta à disputa pela Cadeira 32 uma trajetória vinculada à literatura e à experiência intelectual construída na Bahia.
A eleição para a sucessão de Zuenir Ventura está marcada para 12 de novembro. Até lá, Taurino permanece entre os candidatos à Academia Brasileira de Letras, instituição que reúne escritores e intelectuais de diferentes gerações.
Crédito da foto: Divulgação
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