Cientista baiana premiada internacionalmente transforma vivência com câncer de mama em pesquisa para ajudar outras mulheres

Patrícia Lordêlo desenvolve estudos para tratar disfunções pélvicas, como disfunção sexual, e lança, no Outubro Rosa, autobiografia


O tratamento do câncer de mama salva vidas, mas seus efeitos podem permanecer mesmo depois da remissão. Alterações hormonais, ressecamento vaginal, dor durante as relações, redução da libido, sintomas urinários e outras disfunções relacionadas ao assoalho pélvico podem afetar a qualidade de vida das mulheres durante e após o tratamento.


É nesse contexto que a cientista baiana Patrícia Lordêlo, fisioterapeuta pélvica, professora e pesquisadora especializada em Saúde da Mulher, vem ampliando a discussão sobre saúde pélvica no câncer de mama. A partir da própria experiência com a doença, Patrícia transformou a vivência pessoal em estímulo para aprofundar pesquisas e contribuir para que essas questões sejam incorporadas ao cuidado integral das pacientes.


*Pesquisa com LED azul*

De acordo com a pesquisadora, durante a quimioterapia e a hormonioterapia, alterações na mucosa vaginal podem provocar sintomas semelhantes aos da menopausa. Em alguns casos, o uso prolongado de bloqueadores hormonais pode levar à atrofia vaginal e até à estenose (estreitamento), dificultando exames ginecológicos e afetando a vida sexual.


Desde 2019, Patrícia Lordêlo e sua equipe estudam alternativas não hormonais para essas disfunções. Entre elas está o LED azul intravaginal, dispositivo idealizado e desenvolvido pelo grupo. “Estudos já realizados com mulheres que passaram pelo tratamento do câncer de mama apontaram melhora da lubrificação e do conforto vaginal. A próxima etapa da pesquisa deverá investigar o uso da tecnologia durante o próprio tratamento contra o câncer, inclusive com possibilidade de aplicação no domicílio”, relata a fisioterapeuta pélvica.


Em 2022, o grupo de pesquisa liderado por Patrícia recebeu, em Viena, o prêmio de melhor tratamento conservador no ICS Annual Meeting, congresso da Sociedade Internacional de Continência, pelo estudo sobre o uso de LED no tratamento da Síndrome Geniturinária da Menopausa em sobreviventes do câncer de mama.


*Um problema ainda pouco discutido*

Uma revisão científica publicada em 2026, que reuniu 36 estudos e 9.749 sobreviventes do câncer de mama, estimou em 70% a prevalência de disfunção sexual entre essas mulheres. Embora o dado não represente todas as disfunções pélvicas, evidencia a dimensão de um problema que ainda recebe pouca atenção.


“A fisioterapia pélvica pode integrar o cuidado multidisciplinar e contribuir para a reabilitação dessas pacientes, especialmente diante de sintomas que impactam diretamente a intimidade, a autoestima e a qualidade de vida”, afirma Patrícia Lordêlo.


*Da experiência pessoal à ciência*

Essa trajetória será apresentada em Inteira: Uma história real de corpo, intimidade, ciência, espiritualidade e reconstrução. Trata-se de uma autobiografia de Patrícia que será lançada em Salvador durante o Outubro Rosa. A renda da publicação será integralmente destinada a novas pesquisas na área.


“Quando vivi o câncer de mama, passei a compreender também, na própria pele, questões que já faziam parte da minha trajetória profissional. Percebi o quanto a saúde pélvica e a sexualidade ainda são pouco discutidas durante e depois do tratamento. Transformar essa experiência em pesquisa e conhecimento é uma forma de ressignificar o que vivi e contribuir para que outras mulheres tenham acesso a um cuidado mais completo”, ressalta Patrícia Lordêlo.


*Sobre o livro*

Com prefácio assinado pela multiartista Regina Casé, que esteve próxima de Patrícia durante seu próprio tratamento, o livro será lançado no dia 18 de outubro, às 10h, no Gabinete Português de Leitura de Salvador. A escolha do local também se relaciona à ligação de Patrícia com Portugal, onde divide seu tempo entre consultas, estudos e docência. A obra estará disponível nas versões impressa e digital.

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